grande gala 'azinheira spoken word', tomo 5

Respeitem a senhora de 90 anos


Lisonjeia-me este convite para escrever sobre Fátima. No entanto, sou ex-ateia e de Fátima sei pouco. O que sei é sobretudo de cá de casa e dos tempos nos quais, ainda pré-adolescente (há cerca de duas semanas, portanto), quis, ardentemente, ser ufóloga – li, na altura, um livro chamado As Aparições de Fátima e o Fenómeno OVNI. Uma das razões pelas quais deixei de ser ateia tem que ver com o facto de os ateus terem sempre tendência para acreditar em coisas tão plausíveis quanto Deus. Abduções por alienígenas, comunismo, as manifestações da CGTP. Fátima e os seus peregrinos são uma inspiração para a CGTP que arranjou, no santuário de Fátima, o modelo ideal para as suas manifestações, isto se excluirmos o facto de já alguns dos apóstolos terem pinta de sindicalistas. As diferenças mínimas entre os encontros religiosos de Fátima e as manifestações da CGTP são, por um lado, o número de pessoas que verdadeiramente comparece nuns e noutras: nos primeiros, são muitas, nas segundas, parecem muitas. Por outro lado, são importantes as motivações das pessoas. A fé é um bom motivo para ir a lugares, a falta de fé é um bom motivo para ficar em casa – a participar, por exemplo, em fóruns de discussão na Internet ou numa procissão das velas do Second Life (vou vender a ideia). A quem diz que a religião é o ópio do povo assevero que a manifestação é um acto de desespero interior mais intenso do que a oração que, na sua versão não tropicalizada, acaba por ser bem mais silenciosa do que a manifestação. E o silêncio é uma coisa asseada.
Cá em casa há muitas nossas senhoras, todas virgens, todas de Fátima. A minha avó conversa com elas e pede-lhes coisas. Aprendi cedo que uma Nossa Senhora de Fátima tem grande utilidade num lar. Uma pessoa pede uma coisa e espera que a Nossa Senhora de Fátima lha dê. Se der, vai-se à Cova da Iria – nunca a 13 de Maio, porque nessa data aquilo é pior do que o Colombo na véspera de Natal -, deixar uma velinha do tamanho da coisa que se pediu. A gente pede um avião igual ao do presidente de Angola e depois vai lá colocar uma vela do mesmo tamanho, fabricada com parafina da melhor qualidade, para agradecer. A gente quer um baço novo e vai lá depositar um baço de cera, anatomicamente perfeito, feito a partir de um modelo real. Se a Nossa Senhora não der nada, não se vai lá nesse ano e volta-se, naturalmente, a pedir. Pedir é uma coisa bonita, do domínio da fé, que nos aproxima de Deus e dos santos todos. Nós pedimos e eles ficam a saber os nossos segredos. Divertem-se, os sacanas, grandes e pequenos, cada um na sua gavetinha hierárquica. Pedir é bom e é muito universal. Um crente em Fátima nunca reconhece que Nossa Senhora não lhe deu isto ou aquilo porque ele não merecia ou porque o pedido era, simplesmente, impossível de realizar, como um baço novo ou o avião do presidente de Angola. Mas acho bonito que Fátima comece por melhorar a auto-estima das pessoas e nisso também se inspira a direcção de programas da TVI. A gente diz «Minha Nossa Senhora» como quem diz «Doutor, preciso de ajuda», e está o caso arrumado. Pedir já faz parte da terapia.
Tentaram ensinar-me, muitas vezes, que não se brinca com a fé. Como se brincar não fosse a única maneira de lidar com a colossalidade de uma evidência. A fé não é a consciência de uma existência superior, nem é sequer a consequência de uma existência superior; é uma evidência maior do que qualquer existência superior. A fé é que é a vida, o resto é filosofia. Nota para os esclarecidos: Fátima não é pior do que uma telenovela, antes pelo contrário.

Tatiana, inquilina da terapia metatísica

2 comments:

Cenas Obscenas said...

Boa, pedro. Arriscas-te é que a Tatiana de vá aos cornos à conta do "metafísica".

pedro vieira said...

tudo emendado, tudo emendado