o rancor

os lusitanos, povo perito em autoflagelação, rancor e filmes pornográficos com fim-de-semana no título, que o arrebimba o malho é coisa para encetar em dia certo e sem trabalho à mistura, e o rancor, sempre presente, sempre dominador, especialmente em ocasiões de concentração de olhares em determinado epifenómeno como os Jogos, com jota maiúsculo, isto pelo menos enquanto não começa a liga de futebol com nome de bebida alcoólica, deixámos para trás o patrocínio da casa de apostas, agora bebe-se, para o ano de certeza que o mecenas será o lupanar coche real à venda nova mas só ao sábado e domingo, sem malícias, sem sodomias e com semblante carregado, com a foda e com PORTUGAL não se brinca, e depois o rancor, vertido agora para cima dos atletas olímpicos, vindo dos milhares de iluminados que como se sabe escrevem nos melhores jornais do mundo, participam nos melhores fóruns do mundo, escrevem dislates nas caixas de comentários dos melhores periódicos online do mundo, fazem posts nos melhores blogues do mundo que, em podendo, ensacavam medalhas atrás de medalhas até vir a mulher da fava rica, e depois há os que trabalham nas melhores empresas do mundo onde campeiam os melhores empresários do mundo, triunfadores que se amontoam em castelinhos de seriedade e dedito acusador, agora é a vez dos judocas, nadadores e saltadores, sobretudo os que fazem graçolas, noutras ocasiões é rancor contra os alienados que vão para a praia, contra a silly season como se o resto do ano à portuguesa fosse ao nível dos melhores do mundo, contra as férias pagas que isto é um país de encostados à sombra da bananeira, contra os políticos que querem é roubar, contra os ciganos que são preguiçosos e ladrões e não gostam dos filhos, contra os pretos que atiram sobre os ciganos [valha-nos isso], contra o governo e as oposições, contra os brasileiros que gostam mais do bes do que farofa, contra os espanhóis que são ruidosos e vêm para cá chinelar, contra os comunistas que nos papam as crianças com all-bran e comprometem a reposição das gerações, contra o estado que é opressor e que vai mantendo um serviço nacional de sáude, o que a malta gostava, sonhava até, era com uma cuf em cada esquina, de cinto de liga e saia arregaçada mas só ao fim-de-semana, lusitano, contra os paneleiros que querem dar o nó, contra os pobres que não querem é trabalhar, contra os autocarros que não deixam passar o utilitário quitado, contra os jovens que são cada vez mais burros, já nem sabem os linhas de ferro com se cose o cunene, contra os professores - malandros - contra os sindicatos - ainda mais malandros, sobretudo se de professores. ai que bem que sabe o rancor, a bílis descarregada sobre o Outro, sem cerimónias, do alto da auto-estima inchada dos psicóticos, e eu a pensar que por mais ikeas que abram este é um país com muita falta de espelhos.

14 comments:

Anonymous said...

Tás um bocadinho rancoroso Irmão...

Ente lectual said...

Nunca pensei que um tipo que na bloga é o rei da pilhéria se pudesse manter merecedor do estatuto durante meia hora de conversa na rádio. Só lamento que não seja de direita que isto de viver à base de borregadas, doçaria conventual e posts tresmalhados do pedro mexia, parecendo que não, começa a saber a pouco.

abraço

Carlos G. Pinto said...

...contra os lusitanos rancorosos que estão sempre do contra.

bê said...

my thoughts exactly. haverá, concerteza, quem se encarapuçe.
como muitas coisas que escreves, este post será impresso só pelo prazer que dará relê-lo over and over.

FavaRica said...

Alguém me chamou..?
(Bê, não imprima isto... olhe as árvores...)

Miguel Marujo said...

excelente, irmão. é vê-los a esvoaçar...

jorge c. said...

Depois há também os críticos dos críticos e os críticos dos críticos dos críticos (o meu caso).
Mas o Pedro Vieira, certamente um rapazito sensato que não é português, deve ser de Marte, pode sempre começar a ir aos estádios ver as provas de atletismo aos fins-de-semana que o o Estado desses portugueses apoia todos os dias, encorajando a formação e justificando as derrotas sofridas pela "maior comitiva de sempre", não é?

PDuarte said...

dou-lhe toda a razão, aliás como quase sempre.
mas por falar "em bilís descarregada sobre o Outro", podendo ser o Outro uma instituição que, como todas as outras, tem gente boa e má, ao mesmo tempo que passa lá pelo tal espelho, reveja isto:
http://irmaolucia.blogspot.com/2008/08/galinha-da-minha-vizinha-sempre-melhor_14.html

azia said...

irmão, assim vale a pena. grande post, maior abraço destoutro lado do atlântico.

pedro vieira said...

jorge, vamos nessa, ofereço a sandes de courato. quer dizer, da última vez que vi o mundial de júniores no estádio universitário só havia folados de salsicha...

pduarte, a gnr não merece bílis. é ódio puro, mesmo. aliás, suspeito que tenham sido eles a esgotar as sandes de courato nos estádios.

Luís Graça said...

Essencialmente, o sentido de humor está a perder-se.
Esse foi o problema do Marco Fortes.
Já não há "cabedal" para aguentar um homem com sentido de humor. Tem de ser tudo muito grave.

E ele deu a cara com muito estilo nas Noites Olímpicas, com o Paulo Catarro.

Estes Jogos deixaram-me revoltado com tanta ignorância e despeito para com os atletas.
Este ouro do Nelson vem desagravá-los um tanto.

jorge c. said...

Ah! Assim já falas a minha fala!
Não é que goste muito de atletismo, mas pela companhia e pelas sandes vou com todo o gosto.

Cristina GS said...

Gostei de ler, embora não goste de couratos ;)

Manuel Padilha said...

Para além da auto-flagelação o povo português é cada vez mais perito em identificar as suas piores características, no entanto conseguindo a proeza de se auto-excluir da generalização.

O rancor é seguramente só dos outros, porque este post não tem nenhum. Falta de espelhos hã?

Uma excelente demonstração da inimaginável arte do duplopensar.